Hoje, após mais de um ano e meio de análise, eu liguei pro meu analista depois do término da sessão. Nunca quis fazer isso, por não querer misturar as coisas, então as únicas vezes que liguei para ele foi para desmarcar uma sessão ou informar um atraso. Hoje foi diferente, a sessão chegou a um final interessante, no qual ele disse "A mãe sempre é o mar, como isso aparece", e eu fiquei enrolando pra sair do consultório, puxando papo sobre Jung e, depois de finalmente sair, ainda liguei para ele pra falar que tinha me lembrado o início de "O Mal-Estar na Civilização", sobre o sentimento oceânico. Assim que desliguei o telefone eu percebi - estava atuando inconscientemente.
Resolvi refletir sobre a situação, chegando a interessantes propostas que me fizeram pensar sobre transferência. A análise da transferência é o grande diferencial de uma análise em relação a outros processos psicoterapêuticos e merece uma atenção especial nas discussões teóricas sobre o processo analítico. Acredito que a transferência foi um grande marco para a construção da teoria psicanalítica e de fato é a grande força motriz de um processo analítico (no caso vou priorizar as análises com os bons e velhos neuróticos, por não dominar outras situações).
Textos como "Recordar, repetir e elaborar" (1914) e "A dinâmica da transferência" (1912) tentam esquematizar um pouco melhor o conceito da transferência e são muito felizes em diversos momentos. Porém, entendo a dificuldade de algumas pessoas entederem o conceito, por muitas vezes não terem se deparado com ele frente a frente, num processo analítico, como foi no meu exemplo supracitado. Mas eu não estava falando de atuação inconsciente? Sim, mas, pelo menos nesse exemplo, creio ter sido um perfeito exemplo do processo transferencial estabelecido com meu analista.
Como já sugere o meu exemplo, a transferência que quero priorizar e a transferência em análise, que se diferencia em um aspecto fundamental de uma transferência fora da análise:
"...na análise, a transferência surge como a resistência mais poderosa ao tratamento, enquanto que, fora dela, deve ser encarada como veículo de cura e condição de sucesso." (Freud, S. A dinâmica da transferência 1912)
Freud utiliza do termo "clichê estereotípico" para dizer sobre a transferência, na qual colocamos uma pessoa que nos relacionamos dentre de um desses "clichês", que são formados durante o nosso desenvolvimento sexual na infância. Nada mais justo do que acreditar que escolhemos relações que se assemelhem aos moldes das nossas primeiras relações, que nós já nos acostumamos a lidar e, portanto, são mais "confortáveis".
Porém, no contexto de análise, a transferência toma outro lugar. É de se estranhar, primeiramente, que a grande força motriz de um processo de análise seja, também, a maior resistência dentro desse processo. Porém, ao refletir sobre o assunto é possível ver que é isso mesmo. Ao colocar o analista dentro de um clichê estereotípico, a pessoa está resistindo ao processo de análise por enviar grande parte da sua libido para uma relação muito anterior, retirando assim a "atenção" necessária da dita realidade. O sujeito vai atuar para o analista como se ele estivesse na mesma posição que se enconra perante a seu pai (na sua fantasia), por exemplo. Lacan depois vai nos dizer (Em "A função criativa da palavra" - Seminário 1) que esse "como se", não existe, e o sujeito de fato atua para seu pai, perante ao analista.
Essa idéia leva em consideração o fato de que o Inconsciente é atemporal, sendo assim, a atuação do indivíduo peranto ao analista durante o processo de análise não é diferente da atuação do sujeito perante seu pai (mais uma vez, por exemplo). Seria função do analista então não responder a essa "demanda" do analisando, pois o analisando "requer" inconscientemente a mesma resposta que ele obteve desse seu pai. A partir do momento que o analista não responde à essa demanda, o analisando pode então se dar conta da sua repetição e se enxergar na posição que ele assumiu durante o atravessamento do seu édipo.
Bom, a conclusão é (se é que podemos falar de conclusão) a atuação inconsciente pode se mostrar presente durante um processo analítico, devido à transferência que é estabelecida durante tal. No caso do meu exemplo, a interpretação do meu analista sobre a relação simbólica da minha mãe com o mar, me levou a tratá-lo com um certo medo de abandono, medo de perder o sentimento oceânico (citado em "O Mal Estar") que é relacionado com o útero materno. A ligação feita após a sessão foi incrivelmente semelhante com as ligações que as crianças costumam fazer pro trabalho dos pais do tipo - você estava pensando em mim? Ou até mesmo do tipo - não se esqueça de que eu existo.