sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Falência da Função Paterna?


Na última reunião do ano do nosso grupo de leitura, estávamos finalizando com chave de ouro esse semestre de estudos com o os últimos capítulos de "O Mal-Estar na Civilização" (Freud, 1930). A discussão que foi suscitada, parece óbvia e parte de uma pergunta: qual é o mal-estar da nossa atual civilização? Em aulas de psicopatologia, ou em discussões sobre assunstos desse escopo, constantemente ouvimos dizer que "a depressão é o mal do século" ou "a depressão é o mal do homem contemporâneo". Bom, se de fato for o "mal" do século, a próxima pergunta a se fazer é: por que?

Não gostaria de abordar, no atual momento, a comparação entre depressão e melancolia, precisaria me preparar um pouco mais pra elucidar a questão. Por enquanto, vamos apenas aproximar esses quadros pelo narcisismo. Em "Luto e melancolia" (Freud, 1917), ele vai nos falar do funcionamento do quadro melancólico, apontando para um retorno da libido que antes estava investida em um objeto (idealizado, mas que caiu, morreu, frustrou) e uma "prisão" dessa libido, em outras palavras, ela não é elaborada como um luto e fica retida, não é reinvestida em um novo objeto. As implicações desse texto são várias, mas gostaria de me focar nessa aproximação da melancolia com a psicose. Vamos guardar isso, por enquanto.

Já em "Totem e Tabu" (Freud, 1913), Freud aponta para o surgimento não só da civilização, mas do próprio Sujeito pela atuação da função paterna. No "Mal-Estar", no capítulo VII, ele vai desenvolver a idéia de que a civilização só poder ser mantida por um "controle interno" do indivíduo, através do superego. O superego é a internalização da autoridade que nos castrou, ou seja, a internalização da autoridade presente na função paterna. Essa função paterna que estou dizendo não é, necessariamente, feita pelo homem. Mas é a função que limita e delimita o sujeito. Ainda nesse capítulo de "Mal-Estar", Freud suscita uma questão importante sobre a horda primeva que explica o surgimento da vida psíquica como a conhecemos hoje:

"Mas, se o sentimento de culpa remonta à morte do pai primevo, trata-se, afinal de contas, de um caso de 'remorso', por ventura não devemos supor que [nessa época] uma consciência e um senimento de culpa, como pressupomos, já existiam antes daquele feito? Se não existisa, de onde então proveio o remorso?" (Freud, S. O Mal-Estar na Civilização 1930)
Freud diz que provém do sentimento ambivalente, mas vamos nos deter em outro ponto: qual era a função desse pai, nessa ordem primeva, se não a de proteger e impor limites? Depois da morte desse pai primevo, Freud desenvolve toda a questão do totemismo e do surgimento da religião, falando diversas vezes ao longo de sua obra que deus e a religão surgem do desamparo infantil:

"Assim, seu anseio por um pai constitui um motivo idêntico à sua necessidade de proteção contra as consequeências da sua debilidade humana. É a defesa contra o desamparo infantil que empresta suas feições características à reação do adulto ao desamparo que ele tem de reconhecer - reação que é, exatamente, a formação da religião" (Freud, S. O Futuro de uma Ilusão, 1927)
Esse deus então vem como um substituto, renovado, do pai primevo. Mas hoje em dia, deus também caiu de seu pedestal, já que a ciência hoje "responde" tudo. Parece que as sociedades sempre se organizam em torno de um pai, de alguma forma. E era ai que eu queria chegar desde o início - estamos na sociedade hoje, sem pai? A ciência não parece servir de pai, pois ela faz o movimento contrário - ela tende aproximar o ser humano do ilimitado. Temos cada vez mais apreço pela liberdade e pelo conforto. Você hoje pode comprar tudo pela internet (comida, roupas, acessórios, livros, e por ai vai...), você pode ter um relacioamento pela internet, você tem as redes sociais pra te amparar. Além disso, estar amarrado à alguém hoje em dia é uma loucura e inclusive a psicanalista Regina Navarro, em uma entrevista (link segue em anexo), "prevê" que a poligamia vai ter cada vez mais força nos próximos anos, pois a monogamia está caindo.

Esse tipo de situação apenas aponta para uma liberdade que o homem nunca antes sonhou. Estamos livres de tudo, estamos nos afastando das limittações do corpo, já que hoje tudo é virtual, temos remédios e suplementos para nosso corpo não adoecer, ou simplesmente melhorar de funcionamento. Estamos completamente livres pra poder termos tudo nas mãos através de um clique ou telefonema, como a nossa majestade o bebê. Parece, na verdade, que esses limites estão desaparecendo, o que nos leva a pensar se a função paterna, de impor limites, está falindo.

Aqui vou resgatar um pensamento do início do texto - por que então o mal do século é a depressão e não a psicose? Lacan nos traz a foraclusão do Nome do Pai para enteder o funcionamento da psicose. Na psicose você de fato não tem um limite estabelecido entre você e o outro, em termos psicanalíticos, a simbiose mãe-filho é mantida, a realização do incesto ocorre. Bom, a resposta parece clara: a função paterna ainda existe e está funcionando, porém, de alguma forma diferenciada, ou até mesmo debilitada. Quando Freud nos diz que na melancolia a libido regressou do objeto amado e perdido, ele nos diz que existiu algo como um objeto - o que aponta claramente para um mínimo de reconhecimento de auteridade, que só é possível com a Lei Simbólica - o Nome do Pai.

Bom, o que podemos resolver disso é que algo assumiu a função do pai depois de deus, que não parece ter sido a ciência. O que foi então? A resposta seria - a própria sociedade? Podemos enxergar essa nova liberdade que o homem tem como direito inalienável como uma imposição que parte do mesmo campo da moral de que partiu a moral restritiva religiosa. Segue o link de um texto de um blog que eu acredito mostrar bem o que eu estou tentando exemplificar:

Lesbianidade é o destino
Não estou questionando a homossexualidade, o que quero dizer é que esse discurso de proposta tão libertadora é tão castrante como o completo inverso. Então toda essa imposição de libertação de antigas amarras, as propostas disfarçadamente impostas da revolução francesa (Liberdade, Igualdade e Fraternidade) fazem contraditoriamente a manutenção dessa função paterna. A sociedade está passando por transições sim. O complexo de édipo como Freud nos trouxe há de ser mais elaborado, pois, como Freud diz:

"Enquanto a comunidade não assume outra forma que não seja a da família, o conflito está fadado a se expressar no complexo edipiano, a estabelecer a consciência e a criar o primeiro sentimento de culpa." (Freud, S. O Mal-Estar na Civilização 1930)
A família como Freud conheceu está rara, ainda bem. Estamos diante de um novo período de novas possibilidades, de fato. O complexo de édipo deverá, eventualmente, ser reelaborado, relido, ou substituido por novos modelos.

A questão que gostaria de deixar aqui é a seguinte - existe a possibilidade da função paterna falir? Se sim, ela pode falir sem levar junto a civilização, o sujeito e a vida psíquica como a conhecemos?

Pra quem prefere questões mais filosóficas - a função paterna tem se tornado presentificada pela sua falta? Como que a liberdade pode nos impor limites, no pensamento psicanalítico?

Talvez o mal-estar da civilização atual seja acessível através da compreensão dessa depressão - que parece ser um sintoma do narcisismo que está se intensificando na sociedade moderna, sob o paradoxo de que de tão voltados para si estamos, não enxergamos nossos próprios limites, não percebemos nossa própria identidade. 

Anexo:





quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Transferência e atuação Inconsciente


Hoje, após mais de um ano e meio de análise, eu liguei pro meu analista depois do término da sessão. Nunca quis fazer isso, por não querer misturar as coisas, então as únicas vezes que liguei para ele foi para desmarcar uma sessão ou informar um atraso. Hoje foi diferente, a sessão chegou a um final interessante, no qual ele disse "A mãe sempre é o mar, como isso aparece", e eu fiquei enrolando pra sair do consultório, puxando papo sobre Jung e, depois de finalmente sair, ainda liguei para ele pra falar que tinha me lembrado o início de "O Mal-Estar na Civilização", sobre o sentimento oceânico. Assim que desliguei o telefone eu percebi - estava atuando inconscientemente.

Resolvi refletir sobre a situação, chegando a interessantes propostas que me fizeram pensar sobre transferência. A análise da transferência é o grande diferencial de uma análise em relação a outros processos psicoterapêuticos e merece uma atenção especial nas discussões teóricas sobre o processo analítico. Acredito que a transferência foi um grande marco para a construção da teoria psicanalítica e de fato é a grande força motriz de um processo analítico (no caso vou priorizar as análises com os bons e velhos neuróticos, por não dominar outras situações).

Textos como "Recordar, repetir e elaborar" (1914) e "A dinâmica da transferência"  (1912) tentam esquematizar um pouco melhor o conceito da transferência e são muito felizes em diversos momentos. Porém, entendo a dificuldade de algumas pessoas entederem o conceito, por muitas vezes não terem se deparado com ele frente a frente, num processo analítico, como foi no meu exemplo supracitado. Mas eu não estava falando de atuação inconsciente? Sim, mas, pelo menos nesse exemplo, creio ter sido um perfeito exemplo do processo transferencial estabelecido com meu analista. 

Como já sugere o meu exemplo, a transferência que quero priorizar e a transferência em análise, que se diferencia em um aspecto fundamental de uma transferência fora da análise:

"...na análise, a transferência surge como a resistência mais poderosa ao tratamento, enquanto que, fora dela, deve ser encarada como veículo de cura e condição de sucesso." (Freud, S. A dinâmica da transferência 1912)
Freud utiliza do termo "clichê estereotípico" para dizer sobre a transferência, na qual colocamos uma pessoa que nos relacionamos dentre de um desses "clichês", que são formados durante o nosso desenvolvimento sexual na infância. Nada mais justo do que acreditar que escolhemos relações que se assemelhem aos moldes das nossas primeiras relações, que nós já nos acostumamos a lidar e, portanto, são mais "confortáveis".

Porém, no contexto de análise, a transferência toma outro lugar. É de se estranhar, primeiramente, que a grande força motriz de um processo de análise seja, também, a maior resistência dentro desse processo. Porém, ao refletir sobre o assunto é possível ver que é isso mesmo. Ao colocar o analista dentro de um clichê estereotípico,  a pessoa está resistindo ao processo de análise por enviar grande parte da sua libido para uma relação muito anterior, retirando assim a "atenção" necessária da dita realidade. O sujeito vai atuar para o analista como se ele estivesse na mesma posição que se enconra perante a seu pai (na sua fantasia), por exemplo. Lacan depois vai nos dizer (Em "A função criativa da palavra" - Seminário 1) que esse "como se", não existe, e o sujeito de fato atua para seu pai, perante ao analista.

Essa idéia leva em consideração o fato de que o Inconsciente é atemporal, sendo assim, a atuação do indivíduo peranto ao analista durante o processo de análise não é diferente da atuação do sujeito perante seu pai (mais uma vez, por exemplo). Seria função do analista então não responder a essa "demanda" do analisando, pois o analisando "requer" inconscientemente a mesma resposta que ele obteve desse seu pai. A partir do momento que o analista não responde à essa demanda, o analisando pode então se dar conta da sua repetição e se enxergar na posição que ele assumiu durante o atravessamento do seu édipo.

Bom, a conclusão é (se é que podemos falar de conclusão) a atuação inconsciente pode se mostrar presente durante um processo analítico, devido à transferência que é estabelecida durante tal. No caso do meu exemplo, a interpretação do meu analista sobre a relação simbólica da minha mãe com o mar, me levou a tratá-lo com um certo medo de abandono, medo de perder o sentimento oceânico (citado em "O Mal Estar") que é relacionado com o útero materno. A ligação feita após a sessão foi incrivelmente semelhante com as ligações que as crianças costumam fazer pro trabalho dos pais do tipo - você estava pensando em mim? Ou até mesmo do tipo - não se esqueça de que eu existo.


quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Sobre o blog: uma introdução.

O que você sabe?


O que você pensa?


O que você conhece?


O que acontece com com aquilo que não conseguimos apreender com palavras?
Vira dor, vira dúvida, vira certaza, vira angústia?

Talvez sim, talvez não. Mas estamos aqui pra investigar, questionar e devanear em cima do grande tema da psicanálise. Vamos trazer nossas dúvidas, nossas certezas e nossas angústias. Vamos trazer nosso saber (ou não) e brincar com ele, sem compromissos.

Vamos escrever.

Sejam bem vindos.