Na última reunião do ano do nosso grupo de leitura, estávamos finalizando com chave de ouro esse semestre de estudos com o os últimos capítulos de "O Mal-Estar na Civilização" (Freud, 1930). A discussão que foi suscitada, parece óbvia e parte de uma pergunta: qual é o mal-estar da nossa atual civilização? Em aulas de psicopatologia, ou em discussões sobre assunstos desse escopo, constantemente ouvimos dizer que "a depressão é o mal do século" ou "a depressão é o mal do homem contemporâneo". Bom, se de fato for o "mal" do século, a próxima pergunta a se fazer é: por que?
Não gostaria de abordar, no atual momento, a comparação entre depressão e melancolia, precisaria me preparar um pouco mais pra elucidar a questão. Por enquanto, vamos apenas aproximar esses quadros pelo narcisismo. Em "Luto e melancolia" (Freud, 1917), ele vai nos falar do funcionamento do quadro melancólico, apontando para um retorno da libido que antes estava investida em um objeto (idealizado, mas que caiu, morreu, frustrou) e uma "prisão" dessa libido, em outras palavras, ela não é elaborada como um luto e fica retida, não é reinvestida em um novo objeto. As implicações desse texto são várias, mas gostaria de me focar nessa aproximação da melancolia com a psicose. Vamos guardar isso, por enquanto.
Já em "Totem e Tabu" (Freud, 1913), Freud aponta para o surgimento não só da civilização, mas do próprio Sujeito pela atuação da função paterna. No "Mal-Estar", no capítulo VII, ele vai desenvolver a idéia de que a civilização só poder ser mantida por um "controle interno" do indivíduo, através do superego. O superego é a internalização da autoridade que nos castrou, ou seja, a internalização da autoridade presente na função paterna. Essa função paterna que estou dizendo não é, necessariamente, feita pelo homem. Mas é a função que limita e delimita o sujeito. Ainda nesse capítulo de "Mal-Estar", Freud suscita uma questão importante sobre a horda primeva que explica o surgimento da vida psíquica como a conhecemos hoje:
"Mas, se o sentimento de culpa remonta à morte do pai primevo, trata-se, afinal de contas, de um caso de 'remorso', por ventura não devemos supor que [nessa época] uma consciência e um senimento de culpa, como pressupomos, já existiam antes daquele feito? Se não existisa, de onde então proveio o remorso?" (Freud, S. O Mal-Estar na Civilização 1930)
Freud diz que provém do sentimento ambivalente, mas vamos nos deter em outro ponto: qual era a função desse pai, nessa ordem primeva, se não a de proteger e impor limites? Depois da morte desse pai primevo, Freud desenvolve toda a questão do totemismo e do surgimento da religião, falando diversas vezes ao longo de sua obra que deus e a religão surgem do desamparo infantil:
"Assim, seu anseio por um pai constitui um motivo idêntico à sua necessidade de proteção contra as consequeências da sua debilidade humana. É a defesa contra o desamparo infantil que empresta suas feições características à reação do adulto ao desamparo que ele tem de reconhecer - reação que é, exatamente, a formação da religião" (Freud, S. O Futuro de uma Ilusão, 1927)
Esse deus então vem como um substituto, renovado, do pai primevo. Mas hoje em dia, deus também caiu de seu pedestal, já que a ciência hoje "responde" tudo. Parece que as sociedades sempre se organizam em torno de um pai, de alguma forma. E era ai que eu queria chegar desde o início - estamos na sociedade hoje, sem pai? A ciência não parece servir de pai, pois ela faz o movimento contrário - ela tende aproximar o ser humano do ilimitado. Temos cada vez mais apreço pela liberdade e pelo conforto. Você hoje pode comprar tudo pela internet (comida, roupas, acessórios, livros, e por ai vai...), você pode ter um relacioamento pela internet, você tem as redes sociais pra te amparar. Além disso, estar amarrado à alguém hoje em dia é uma loucura e inclusive a psicanalista Regina Navarro, em uma entrevista (link segue em anexo), "prevê" que a poligamia vai ter cada vez mais força nos próximos anos, pois a monogamia está caindo.
Esse tipo de situação apenas aponta para uma liberdade que o homem nunca antes sonhou. Estamos livres de tudo, estamos nos afastando das limittações do corpo, já que hoje tudo é virtual, temos remédios e suplementos para nosso corpo não adoecer, ou simplesmente melhorar de funcionamento. Estamos completamente livres pra poder termos tudo nas mãos através de um clique ou telefonema, como a nossa majestade o bebê. Parece, na verdade, que esses limites estão desaparecendo, o que nos leva a pensar se a função paterna, de impor limites, está falindo.
Aqui vou resgatar um pensamento do início do texto - por que então o mal do século é a depressão e não a psicose? Lacan nos traz a foraclusão do Nome do Pai para enteder o funcionamento da psicose. Na psicose você de fato não tem um limite estabelecido entre você e o outro, em termos psicanalíticos, a simbiose mãe-filho é mantida, a realização do incesto ocorre. Bom, a resposta parece clara: a função paterna ainda existe e está funcionando, porém, de alguma forma diferenciada, ou até mesmo debilitada. Quando Freud nos diz que na melancolia a libido regressou do objeto amado e perdido, ele nos diz que existiu algo como um objeto - o que aponta claramente para um mínimo de reconhecimento de auteridade, que só é possível com a Lei Simbólica - o Nome do Pai.
Bom, o que podemos resolver disso é que algo assumiu a função do pai depois de deus, que não parece ter sido a ciência. O que foi então? A resposta seria - a própria sociedade? Podemos enxergar essa nova liberdade que o homem tem como direito inalienável como uma imposição que parte do mesmo campo da moral de que partiu a moral restritiva religiosa. Segue o link de um texto de um blog que eu acredito mostrar bem o que eu estou tentando exemplificar:
Lesbianidade é o destino
Não estou questionando a homossexualidade, o que quero dizer é que esse discurso de proposta tão libertadora é tão castrante como o completo inverso. Então toda essa imposição de libertação de antigas amarras, as propostas disfarçadamente impostas da revolução francesa (Liberdade, Igualdade e Fraternidade) fazem contraditoriamente a manutenção dessa função paterna. A sociedade está passando por transições sim. O complexo de édipo como Freud nos trouxe há de ser mais elaborado, pois, como Freud diz:
"Enquanto a comunidade não assume outra forma que não seja a da família, o conflito está fadado a se expressar no complexo edipiano, a estabelecer a consciência e a criar o primeiro sentimento de culpa." (Freud, S. O Mal-Estar na Civilização 1930)
A família como Freud conheceu está rara, ainda bem. Estamos diante de um novo período de novas possibilidades, de fato. O complexo de édipo deverá, eventualmente, ser reelaborado, relido, ou substituido por novos modelos.
A questão que gostaria de deixar aqui é a seguinte - existe a possibilidade da função paterna falir? Se sim, ela pode falir sem levar junto a civilização, o sujeito e a vida psíquica como a conhecemos?
Pra quem prefere questões mais filosóficas - a função paterna tem se tornado presentificada pela sua falta? Como que a liberdade pode nos impor limites, no pensamento psicanalítico?
Talvez o mal-estar da civilização atual seja acessível através da compreensão dessa depressão - que parece ser um sintoma do narcisismo que está se intensificando na sociedade moderna, sob o paradoxo de que de tão voltados para si estamos, não enxergamos nossos próprios limites, não percebemos nossa própria identidade.
Anexo:
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